Beijos, abraços, apertos de mão, brincadeiras, admiração e respeito. É assim que o pe. José Carlos Fernandez é recebido pelas crianças e jovens atendidos nas duas unidades do Centro Social São José de Calazans, um projeto social da Paróquia que tem o Santo Calazans como padreiro.

Ao receber 10 comunidades, distribuídas nos bairros Feu Rosa e Vila Nova de Colares, na Serra, o padre adotou como modalidade de administração paroquial a Comunidade de Comunidades, ou seja, uma paróquia onde os serviços religiosos são distribuídos de forma equitativa entre elas.

Sem a existência de uma matriz que concentre mais atividades, a vida paroquial acontece com a atuação de conselhos, equipes e pastorais das comunidades, direcionados pelo Conselho Pastoral Paroquial.

“Este conselho é o órgão mais importante e tem a representação de todas as comunidades, de todas as pastorais e de todas as equipes. Ele se reúne todo mês para que sejam tomadas as posturas, direcionamentos e as decisões. O que é decidido passa para os conselhos comunitários que são acompanhados pelos padres. Os braços técnicos desta dinâmica são as pastorais e as equipes que executam o que os conselhos vão assumindo”, explicou o pe. José Carlos.

Atualmente esta modalidade foi amparada e confirmada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) com o conceito de “Paróquia Comunidade de Comunidades”. O desafio diário, segundo o padre, é criar o sentimento de paróquia e fortalecê-la como tal, ao mesmo tempo que se incentiva o crescimento da vida da comunidade.

Para isto, o pe. José Carlos criou metas e mecanismos que estimulam a cooperação e a ajuda mútua entre elas. Um destes mecanismos é o Fundo Solidário Paroquial, que consiste em depositar 10% do valor do dízimo que fica na paróquia, durante os 12 meses do ano, em um fundo de reserva.

“No final do ano, a paróquia completa a quantia com o dobro do que foi depositado, e este valor total vai para a comunidade que mais necessita, escolhida pelo Conselho Paroquial”, explicou.

Outro mecanismo é o Programa de Incentivo ao Crescimento (PIC) que coloca a cada ano algumas metas para as comunidades. Para 2018 são: o crescimento do número de catequistas, do dízimo, de membros participantes de Círculos Bíblicos e do número de jovens na Pastoral da Juventude (PJ).

As comunidades que atingem estas metas recebem um bônus para usar com materiais que precisam. No último ano, a comunidade que bateu a meta de maior crescimento de jovens na PJ ganhou para o grupo, uma ida ao cinema com o padre.

“A condição foi escolher uma sessão no meio da semana e, que quem tivesse, levasse a carteirinha de estudante para ficar mais barato”, brincou pe. José Carlos.

Outra forma de estimular a vida paroquial é promovendo a relação entre o padroeiro e as comunidades.

“Nós falamos que São José de Calazans, não tem casa. A estátua dele vai circulando por todas as comunidades para criar uma relação entre São José de Calazans e os padroeiros de cada comunidade. Nosso grande desafio é não ver a paróquia como uma entidade puramente organizacional, mas também poder sentir a paróquia como um ser vivo, pulsante, pastoral, em crescimento, o Corpo de Cristo que é a Igreja, neste caso a paróquia e as comunidades”, afirmou.

A escolha do padroeiro foi uma sugestão do próprio padre José Carlos para que não houvesse desgastes entre as comunidades, já que cada uma queria que seu padroeiro fosse o escolhido para dar nome à paróquia.

“Sugeri então o novo santo que estava chegando, pois entendo que o Arcebispo Dom Luiz não nos trouxe aqui para sermos simplesmente padres, isto ele já tem. Ele nos chamou porque temos o carisma religioso de Calazans. Esse carisma é a criança, o adolescente, o jovem sendo transformados a partir da educação. As comunidades se encantaram com esta proposta”, afirmou.

O encanto foi tanto que o Centro Social São José de Calazans virou a “menina-dos-olhos” da paróquia. Os projetos sociais desenvolvidos lá traduzem a esperança de melhores perspectivas de vida para mais de 300 crianças e jovens inseridos em um contexto de risco social.

Cada um deles é conhecido por seu nome e por sua história e recebem tanto do pe. José Carlos como dos voluntários e educadores do centro social, o carinho, a atenção, o afeto e o amor que muitas vezes não recebem em casa.

O objetivo do projeto é atender as crianças e jovens dos seis aos 18 anos, pois São José de Calazans defendia que, quando uma criança é acompanhada e educada desde os seis anos até sua juventude, ela pode ser considerada salva.

A maior parte das crianças e jovens que chegam às unidades I e II do centro social, localizadas em Vila Nova de Colares, são encaminhadas pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) da Serra, por se encontrarem em situações que representem vulnerabilidade, desintegração familiar, alto risco de abandono, desamparo, evasão escolar ou baixa renda familiar. Existem também as que chegam por demanda espontânea, e as que são detectadas na rua por algum educador ou pelo próprio padre.

Elas são atendidas por mais de 50 voluntários, 21 educadores contratados, e por jovens intercambistas vindos de outros países.

“O trabalho é uma oportunidade de fazer algo bom pelas crianças, colaborando para uma sociedade melhor”, afirma a argentina Milagros Suter, que há duas semanas atua na unidade II do centro social.

A paróquia é a grande responsável pelo projeto, mas parcerias com a Prefeitura da Serra, Justiça Federal e com empresas de dentro e fora do estado garantem que os meninos e meninas tenham acesso a computadores, livros, salas equipadas e alimentação.

Para eles são oferecidos cursos de computação, reforço escolar, balé, dança de rua, artesanato, musicalização, capoeira e disciplina de valores humanos, mas o que realmente faz a diferença é a criação do “Projeto Pastoral do Centro Social”, considerado pelo pe. José Carlos a locomotiva do projeto.

“O Evangelho é o nosso diferencial, senão seríamos mais uma entidade boa que faz um serviço social muito bom. De forma comunitária, interativa, envolvemos todos os nossos educadores para elaborar um projeto pastoral que tem várias dimensões; as crianças, as famílias, os educadores e a sociedade”, explicou.

Dentro desta ótica, as crianças e suas famílias participam das missas e celebrações e os educadores, além do ensino, estão transmitindo Jesus na referência constante, na oração inicial, na forma de tratar as crianças, na forma de lidar com os problemas que vão surgindo.
“As crianças não são fáceis. Muitas são problemáticas. Então, esse lado pastoral é o que nos guia”, afirmou o padre que contou também que a recepção das crianças ao tema religioso é impressionante.

Para ele, o sucesso do projeto, com as transformações possibilitadas pela educação e pelo tema religioso, só é possível porque existe um diferencial chamado vínculo.

“Eu creio que o vínculo é o tema fundamental. Ele é o laço profundo que nos une com aquilo que descobrimos, que amamos, que nos identificamos. Então, aqui as crianças criam vínculos afetivos, emocionais, sentimentais e religiosos, e isto é o que sustenta o projeto”, defende.
Para ele também é o vínculo que possibilita que muitos que terminam o projeto, retornem querendo participar como voluntários para ajudar outras crianças. “É o que nos diz o Evangelho: De graça recebestes, de graça dai (Mateus 10:8)”, comentou.

Atuante na comunidade Nossa Senhora Aparecida, o jovem Washington Biondi Pinto, de 20 anos, ficou um tempo observando o ‘ir e vir’ das crianças e resolveu se aproximar, pois já tinha intenção de trabalhar com elas. Ele conta que se sentiu motivado a ajudar quando viu crianças uniformizadas com camisetas do projeto passando em frente a sua casa.

“Inicialmente eu achei que era um projeto como outro qualquer, mas quando conheci a proposta, quando comecei a lidar com as crianças, me apaixonei. O envolvimento foi tanto que vi despertar em mim o lado vocacional. No mês que vem sigo para a fase de experiência”, contou.

A educadora social Dalgiza Frossad, também atesta que é motivada pelo vínculo criado com as crianças e jovens. Coordenando a oficina “Um dia da Beleza”, ela afirmou que se sente feliz ao mostrar a beleza que cada um possui.

reportagem3copia_20180206105140“Eles são muito importantes e quero que saibam o quanto são belos. Incentivando o cuidado com a aparência deles, contribuo para que eles despertem sua autoestima”, afirmou.
A meta do padre José Carlos é criar uma terceira unidade do Centro Social para atender as crianças e jovens de Ourimar, bairro vizinho de Vila Nova de Colares, também carente de uma ação social para crianças e adolescentes.

Mas, enquanto a ideia é amadurecida, outra ação social importante está sendo realizada na paróquia; a criação da Pastoral do Alimento que garante a alimentação de mais de 370 pessoas todas as quartas-feiras. As marmitas são distribuídas na Comunidade Nossa Senhora Aparecida a pessoas cadastradas com necessidades comprovadas.

“Como dizia o sociólogo Betinho “Quem tem fome, tem pressa”. Enquanto amadurecemos a ideia de uma terceira unidade do Centro Social, trabalhamos para atender um problema social ainda mais urgente; a fome”, afirmou.

Andressa Mian
Jornalista

FONTE: Revista Vitória